Arte, Educação e Ecologias

Nasci com janelas abertas. Hora viradas para fora, olhos virados para dentro. Passo o tempo refletindo ambientes e com gentes a saltar entre o horizonte de fora, onde todos querem chegar, e as nascentes de dentro, onde todos voltam quando precisam dormir. Interpreto os sons do ambiente como chamados para a vida, e lá vou eu, saltar a janela. Somos muitos. Inumeráveis. Já nem sei quem sou.

Do rio que somamos, parte fica para o sempre, parte parte para o nunca mais. Desapego das vidas que tive, como os sábios sem memória. Conto com janelas alheias, onde permaneço sem sequer saber. Vivo em outros, refugiada. Vivem em mim multidões, invadem-me para refrescarem-se em risos de água limpa, distrair sua seriedade. Seriedade do tempo.

Foi num piscar de olhos que segurei dois filhos nos cílios. Ficaram pendurados, entre as pestanas, interpretando a paisagem. Provocaram em meus olhos cataratas. Eu quase não via nada. Tudo era névoa e fé. Confiei a eles meu olhar e senti sua felicidade ao vê-los ver a luz do dia e o mistério da noite. Cantavam alto para voar em voz, sempre seguros à janela, como quem canta a vista do alto do cesto da gávea[1], entre os ventos fortes e o ar salgado. Tudo oscilava em seus olhos. Tudo mareava nos meus.

Quando por fim se apaixonaram pelas gaivotas e gritaram “terra a vista”, chorei rio salobro, recobrei sentidos, vi o mundo triplicado, vi janelas e faróis, vi o tempo correr montanhas, vi avós, vi-os indo, vi meus olhos, me vi, alongada no tempo.

Somos um. Somamos olhares, multifocamos, prismas de espelho, primos primeiros, posicionamos, compomos a luz, refletimos feixes em cores, iluminamos uns aos outros, em sinais iridianos[2], como fios de confiar, fiamos. Ao longo da história da humanidade, nos formamos, complementares olhares, fundamentos humanos, firmamos.


[1] Na gávea por ser o ponto mais elevado na embarcação, é que se construía o cesto de observação – Cesto da gávea – para monitoramento nos navios onde os vigias perscrutavam o horizonte em busca de sinais de terra.

[2] A iridologia é baseada na interpretação da superfície da íris e seus comportamentos. A interpretação adequada dessa linguagem de sinais nos permite obter informações muito valiosas sobre o estado de saúde, resiliência e predisposições genéticas.